CÁRCERE QUIMICO E A PEDAGOGIA DO SILÊNCIO: PARA ONDE VÃO OS CORPOS INVISÍVEIS? – HUMANIZE
Autora: Clésia Carneiro da Silva Freire Queiroz.
Neste livro, falaremos sobre o “vazio”. Porém não se engane: esse vazio não é um erro de cálculo ou uma falha de planejamento. Ele é um projeto. Manter o paciente psiquiátrico no limbo — nem totalmente doente para ser curado, nem totalmente preso para ser solto — é a forma mais eficaz de torná-lo invisível.
📥 Ler 📤 Compartilhar📘 Informações Técnicas
ISBN: 978-65-5255-153-5
Ano de publicação: 2026
Editora: Editora Humanize
Páginas: 39
DOI: 10.29327/5760026
🧾 Como citar este livro (ABNT)
📖 Prefácio
Imagine uma casa velha, cujas paredes estão impregnadas de dor. Por décadas, a sociedade olhou para essa casa — o manicômio — e sentiu um incômodo na alma. Decidimos, então, por uma reforma. Comemoramos a derrubada dos muros e o fim das correntes. Mas, enquanto celebrávamos na praça, o Estado, nos fundos do terreno, construía um anexo. Ele não chamou de hospital, nem de asilo. Chamou de “Centro de Saúde”. Mas as chaves continuam nos mesmos cintos, e o ar que se respira ali ainda é o ar da clausura.
A Transição da Cor para o Cinza Antigamente, a loucura era uma “doença” que se escondia sob o jaleco branco. Hoje, ela sofreu uma mutação perversa: tornou-se “perigo” que se tranca sob a farda. O paciente não é mais alguém que precisa de cuidado; ele é uma ameaça que precisa de vigilância. Mudamos o rótulo do frasco, mas o conteúdo continua sendo o isolamento. A loucura, no sistema penitenciário, deixou de ser um diagnóstico para se tornar um agravante.
A Transinstitucionalização: O nome novo para a dor antiga a reforma que prometia a liberdade parou no portão da penitenciária. o que assistimos hoje é a “transinstitucionalização” — uma palavra difícil para uma realidade simples: o corpo apenas trocou de depósito. o “louco” que saía do hospício tropeçou no “inimputável” que entra na cela. O hospital não acabou; ele se metamorfoseou, vestiu-se de grade e se camuflou de Centro de Saúde. É o manicômio que se recusa a morrer, sobrevivendo como um parasita dentro do organismo do sistema prisional.
Neste livro, falaremos sobre o “vazio”. Porém não se engane: esse vazio não é um erro de cálculo ou uma falha de planejamento. Ele é um projeto. Manter o paciente psiquiátrico no limbo — nem totalmente doente para ser curado, nem totalmente preso para ser solto — é a forma mais eficaz de torná-lo invisível.
O vazio é o silêncio dos corredores onde ninguém ouve o grito, é a medicação que apaga a luz dos olhos e a escola que ensina apenas a baixar a cabeça. O Estado não “esqueceu” essas pessoas no vazio; ele as colocou lá para que nós, o resto da sociedade, pudéssemos esquecer que elas existem.
Este prefácio é um convite para você caminhar por esses corredores. Não para observar a loucura, mas para observar a nossa própria herança de exclusão. Porque enquanto houver uma grade protegendo um diagnóstico, a nossa reforma será apenas uma pintura nova sobre uma parede que está desmoronando.
