1ª edição • 2026
Editora Humanize
CONDENADO A MIM MESMO: A JORNADA DE UM HOMEM ALÉM DAS GRADES
Autora: Clesia Carneiro da Silva Freire Queiroz
Condenado a Mim Mesmo narra a trajetória de Zé da Lua, um homem que descobre que sua prisão mais profunda não está apenas nos muros e nas grades, mas na culpa que carrega consigo. Marcado por perdas, violência, escolhas e uma longa condenação, ele encontra, em meio ao isolamento, uma possibilidade de reconstrução. A obra aborda responsabilidade, trauma, autoperdão e redenção, mostrando que a libertação interior pode começar antes mesmo da abertura das grades.
Sobre o livro
Apresentação da obra
O dia em que entrei naquele presídio, o céu estava cinzento como chumbo derretido. Lembro das gotas grossas de chuva batendo no para-brisa do camburão, distorcendo o mundo lá fora como uma lágrima distorce o rosto de quem chora. Minhas mãos estavam algemadas, mas não era o metal frio que me apertava os pulsos que me doía. Era outra coisa. Era aquela voz dentro de mim que não parava de sussurrar: “Você merece isso. Você merece cada segundo de inferno que vai viver daqui para frente.” O sistema prisional, com seus muros de concreto armado e arame farpado que corta o céu em pedaços, tem a capacidade brutal de trancar o corpo. As celas superlotadas, o cheiro de mofo e desespero que se gruda na roupa, na pele, nos pulmões, as vozes dos outros presos que ecoam pelos corredores como almas penadas em busca de redenção — tudo isso prende a gente num lugar físico do qual parece impossível escapar. Mas eu descobri, nos anos seguintes, que existe uma prisão muito pior. Uma que não tem muros nem portões de ferro. Uma que você carrega para onde quer que vá, que te acompanha até no sonho, que sussurra no seu ouvido nos momentos mais silenciosos da madrugada. A prisão da culpa. A condenação perpétua que a gente decreta para si mesmo muito antes de qualquer juiz bater o martelo. Os homens do direito me condenaram a vinte e cinco anos. Mas eu, naquela tarde chuvosa em que ouvi o portão se fechar atrás de mim, me condenei à vida inteira. A sentença dos homens é limitada. Ela tem prazo, tem recurso, tem possibilidade de redução. Mas a sentença que a gente impõe a si mesmo não conhece essas molezas. Ela é eterna, implacável, surda a qualquer pedido de clemência. E o pior: ela não vem de fora. Ela brota dentro da gente, alimentada por cada memória dolorosa, cada arrependimento, cada noite em claro remoendo o que poderia ter sido feito de diferente. Durante anos, achei que essa era a única verdade que eu merecia. Que o sofrimento na cela, a solidão voluntária, a recusa a qualquer forma de conforto ou esperança — tudo isso era meu destino. Meu castigo. Minha expiação. Agora, neste relato, não vou pedir que vocês tenham pena de mim. Não vou justificar meus erros ou minimizar as consequências do que fiz. Cada escolha que tomei foi minha, cada passo que me levou para o fundo do poço foi dado com minhas próprias pernas. O que vou fazer é mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil: vou contar a verdade. A verdade de como um menino de doze anos, que cheirava café passado no pano e ouvia modas de viola no colo do avô, se transformou em um homem que carregava o peso de três mortes nas costas. A verdade de como o fogo que matou meus avós também queimou uma parte de mim que nunca mais voltou. A verdade de como o tiro que matou o balconista naquela farmácia não só tirou uma vida, mas condenou a minha a uma escuridão que parecia não ter fim. E, acima de tudo, a verdade de como encontrei, no lugar mais improvável — dentro de uma cela de prisão, entre muros de concreto e grades de ferro —, uma fresta de luz. Uma fresta pequena, quase invisível, mas suficiente para me lembrar que a escuridão só tem poder sobre a gente enquanto a gente se recusa a enxergar a luz. Demorei décadas para entender isso. Para entender que o perdão próprio não é um luxo que a gente concede a si mesmo depois de sofrer o suficiente. É uma necessidade. É a única coisa que pode, de fato, abrir as grades que a gente construiu dentro da própria cabeça. Esta é a minha história. A história de um homem que foi condenado por um juiz, condenado pela sociedade, condenado por suas próprias escolhas. Mas que, no fundo, sempre esteve condenado a si mesmo. E a história de como, finalmente, elegeu se absolver.
Ficha técnica
- Autores
- Clesia Carneiro da Silva Freire Queiroz
- Revisão e normalização
- EQUIPE TÉCNICA DA EDITORA HUMANIZE
- Projeto gráfico e diagramação
- EQUIPE DE DESIGN EDITORIAL DA EDITORA HUMANIZE
- Publicação
- EDITORA HUMANIZE
- Formato
- LIVRO DIGITAL
